Os Mochinhos a refletir: Será que a capacidade de atenção é um tema recente?

A capacidade que o ser humano possui para focar a atenção em estímulos específicos do meio ambiente, é importante para a sua adaptação ao complexo mundo em que se insere. Essa capacidade acompanha o ser humano desde o início da sua existência, contudo, a tomada de consciência da presença e da importância da mesma, levou ainda alguns anos a surgir, podendo-se afirmar que existe,  irá sempre existir, uma história da capacidade de atenção.

Assim, segundo Tonetti (2008), as primeiras referências à atenção podem ser encontradas na filosofia, nos escritos de Platão, Aristóteles, Lucrécio e Santo Agostinho. A atenção deriva do termo latino attentio, que possui a mesma raiz da palavra tentio. Mo entanto, foi com os trabalhos de Helmholtz, Fechner e Wunndt que se deu o início da chamada "ciência da atenção". Isto significa que apesar das longas discussões sobre a atenção, é apenas a partir dos trabalhos destes investigadores que ela passa a ser sistematizada enquanto ciência. Considera-se que Hermann Von Helmholtz é o primeiro cientista a formular o conceito de atenção nos anos de 1870, descrevendo-a como uma força interna, mobilizada espontaneamente ou voluntariamente, que facilita a atividade sensorial relacionada com uma determinada região do espaço

Entre os principais pesquisadores da atenção no fim do século XIX podemos citar Flechner, Theodor Lipps, Carl Stumpf, Oswald Külpe, Willian James, Pierre Janet, Théodule Ribot e Wilhelm Wundt. Este último fundou, em 1879, o primeiro laboratório experimental que tinha como foco os estudos da atenção (Crary, 2001). Em 1980, William James, um dos autores anteriormente referidos define "atenção", e torna assim a sua definição como uma das mais conhecidas.

Pode-se assim verificar que o estudo da atenção teve uma história incerta na psicologia geral, revelando-se assim, importante na época dos estruturalistas e insignificante nas décadas de 30 e 50. Contudo devido aos estudos da vigilância efetuados aos sentinelas da Guerra, o interesse científico por esta temática renasceu. Foi nesta época, que se englobou o estudo dos mecanismos atencionais na teoria do Processamento de Informação, centrando-se fundamentalmente no seu cariz de seletividade e na sua capacidade. Para alguns autores, foi a sua estreita relação com a atividade fisiológica que motivou o seu estudo (Bartolomeu, Fernández, Ajamil, 2006).

A Neuropsicologia, entretanto surgida com Paul Broca, Carl Wernicke e John H. Jackson, apenas revelou interesse e dedicação ao mundo da atenção na década de sessenta do séc. XX. Nesta época, para estudar a atenção, foi utilizada a técnica de cronometria mental, ou tempos de reação, procedimento que continua a ser indispensável atualmente na área de neuropsicofisiologia. (Portellano, J. 2005)

O interesse pelos processos atencionais surgiu, segundo Portellano (2005) como consequência da obra de Lúria, do aumento da taxa de sobrevivência de pacientes com quadros pós-traumáticos que apresentavam graves alterações ao nível da atenção/concentração e devido ao aparecimento da neuroimagem funcional (RM, RMf, TEP, SPECT) que permitiu estabelecer relações entre a dinâmica funcional e o comportamento.

Nos últimos anos, os estudos da capacidade da atenção têm-se focado na análise dos seus automatismos e do seu processamento semântico não consciente (Bartolomeu, M.; Fernández, V.; Ajamil, C. 2006), verificando-se assim, a existência de estudos caracterizados por diferentes perspetivas e ângulos.

Atualmente, este tema é muito discutido e recorrente em contexto escolar e familiar estando indissocialvelmente ligado às dificuldades de aprendizagem e/ou à Perturbação de Hiperatividade com Défice de Atenção. Assim, é possível constatar através de relatos de professores e de pais, que os problemas de atenção são uma das grandes causas das dificuldades de aprendizagem no meio escolar. O aumento das dificuldades de aprendizagem está relacionado com o acelerado ritmo escolar, a rotina diária da criança, a dependência tecnológica (computador, jogos computarizados, playstations, entre outro), o sedentarismo característico das crianças. o laxismos dos pais, a emancipação da mulher, entre outros. Apesar dos estudos efetuados, a causa desta problemática continua por identificar (Antier, 2002)

Face a esta nova era existem autores que afirmam que a atenção começa assim a ser pensada "essencialmente como um problema moderno". O contexto social atual marcado pela industrialização e pelas novas tecnologias, com inúmeras fontes de estimulação, produtos fluxos de informação exigem uma maior atenção das crianças para se conseguirem adaptar. O excesso de estimulação sensoriomotora produz uma fragmentação da perceção do mundo ao mesmo tempo que viabiliza a constituição de uma atenção volátil (De-Nardin & Sordi, 2009).

Numa sociedade cada vez mais competitiva em que a eficiência, a liderança e a criatividade marcam a diferença devido aos avanços tecnológicos, denota-se necessário que essa evolução seja feita ao nível da gestão emocional intra e interpessoal. Ajudar os alunos a incorporar a conexão entre as suas emoções, pensamentos e sensações corporais. Ou seja, torná-los mais capacitados na regulação das próprias emoções, melhorando o seu comportamento, baixando os níveis de stress, potenciando os relacionamentos e a capacidade de foco. Pelo que a educação sócio-emocional e as práticas de atenção plena (Mindfulness) são ao nosso ver, abordagens que irão marcar a diferença na educação, pois conectam as experiências internas e externas dos alunos e ajudam-nos a ver a congruência entre os dois.


Texto: Costa, S., Bernardo, I. & Almeida, D. (2016). Mochinhos da Sabedoria a trabalhar a atenção. Lisboa: Chiado editora.


Bibliografia: 

Bartolomeu, M., Fernández, V. & Ajamil, C. (2006). Neuropsicología: Libro de Trabajo. Salamanca: Amarú Ediciones.

Crary, J. (2008). A visão que se desprende: Manet e o observador atento no fim do século XIX. O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 67-94, 200.

De-Nardin, M. & Sordi, R. (2009). A aprendizagem da atenção: uma abertura à invenção. Revista Semestral da Associação Brasileira de Psicologia Escolar e Educacional, 13 (1), 97-106.

Portellano, J. (2005). Introducción a la neuropsicologia. Madrid: McGraw-Hill.

Tonnetti, F. (2008). A especificidade da ciência da atenção - da filosofia da mente à neurociência cognitiva. (Dissertação Mestrado em Filosofia). Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas, Universidade de São Paulo: São Paulo.